27 julho, 2020

Ligações

Ligações

Falta um pouco de verdade
No que esperam de ti
A dura e pura realidade
Acaba por falar por si

Quando te doas e amas
A quem mal em si se sente
Recebes lindas palavras
Da alma que está doente

Enquanto a dor a fustiga
És herói, possante, justo
Sábio, e nada empertiga
A estátua do teu busto

Mas a verdade cruel
Quando te salta da boca
Muda logo o teu papel
De heroína passas a louca.

E na ilusão continuam
Afirmando sua certeza
Como querem podem e mandam
Com laivos de realeza

E tu que te doaste
com humildade te afirmas
Á mentira não vergaste
Nem a tendências malignas

E de bestial a besta
Em dois tempos te tornaste
Mas o sorriso te resta
Do amor que lá deixaste.

Miro Couto
27-07-2020

12 julho, 2020

Não confinem o amor

Não confinem o amor

Estar confinado é um adiamento
Adia o abraço, adia o sentimento
adia o amor, adia o lamento
por medo, ou receio do sofrimento

Que forma de viver tão caótica
que tudo é receio, e até o cheiro
os aromas são sentidos pela óptica
que com mascara não chega inteiro

e o amor? Esse  sentimento
que ao simples tacto da pele
pode ser motivo de lamento
para mim para ela e para ele

Mas será que tudo justifica?
Será que confinado implica
não poder sorrir e encantar
ou coisas simples de amar?

Que com medos se afastem
sem a doçura do olhar
sem a energia de te tocar
sem o abraço e o beijo também?

quando confinamos os sentimentos
provocamos mais solidão e lamentos
aversões, estigmas obsessões
Que impedem o amor dos corações.

Confinem os vossos corpos materiais
confinem tudo o que for palpável
não confinem sentimentos aos demais
e tenhamos uma postura mais amável.

Miro Couto
12-07-2020



PS: Para memória futura.


07 julho, 2020

Desafio

Desafio
Um dia, uma jovem, muito jovem amiga me perguntava:
Miro, há alguém que conheças que te "encha as medidas todas"
Resposta minha. Não!
Há pessoas com características que me enchem as medidas, mas nenhuma me enche as medidas todas.

Dei comigo a pensar hoje, quando me lembrava desta pergunta, que há pessoas que passam na nossa vida por um momento, umas por uma estação, e outras para a vida toda.
As que se cruzam connosco, e que de algum modo haverá alguma coisa a aprender e ensinar com elas, se enchessem as medidas todas, nunca poderíamos aprender/ensinar mais do que aquilo que já sabemos.
Não, não há pessoas que nos encham as medidas todas, há pessoas por quem nutrimos mais simpatia, e por quem sentimos que uma ou outra qualidade nos faz sentir que perdemos menos, que não teremos de ceder demais no que sentimos, no que pensamos, e que elas também terão a tolerância de perceberem que não somos o desenho que elas fizeram para suprir aquilo que desejam.
Somo todos seres incompletos, a tentar adquirir o máximo de sabedoria, de experiências de vida, para tirar o curso que nos levará a perfeição, essa que ainda é por todos nós humanidade inatingível, mas que um dia, daqui a uns milhares de anos, alcançaremos.
Aqueles que nos amam, com as lacunas que teremos aos seus olhos, a que eles poderão chamar defeitos, mas que são de facto o desalinhamento dos padrões que cada um tem, serão formas de ou nós ensinarmos, ou nós aprendermos a corrigir.
Para um esperto, o dócil, o bom, o pacífico que cala, nunca será alguém idêntico, alguém que lhe "encha as medidas" pois o padrão dele ainda está na "esperteza" de aproveitar as oportunidades sem que a moralidade o impeça, ao contrário, aquele que se doa á humanidade, aquele que ama incondicionalmente, nunca terá como afinidade alguém que maltrata o mais pequeno ser, e portanto, afiniza-se com alguém próximo dele, mas nunca que lhe "encha as medidas" porque isso, seria encontrar-se a si mesmo, na versão ou na forma contrária. Isso, é impossível, mas é possível partilhar com alguém esta vida, com quem se aproxima dos valores a que definimos como essenciais, como pilares da nossa conduta.

Não há pessoas que me encham as medidas todas, mas há pessoas que faltam poucas "medidas" para que eu me sinta deslocado.
Algumas almas sentem próximo do que eu sinto, muito próximo, e essas são fundamentais.

06 julho, 2020

É proibido proibir

É proibido proibir

É proibido proibir a verdade
É proibido proibir o amor
É proibido proibir a saudade
É proibido proibir o cantor

É proibido proibir a dignidade
É proibido proibir a cultura
É proibido proibir a solidariedade
É proibido proibir postura

É proibido proibir sexualidade
É proibido proibir aventura
É proibido proibir a tenra idade
É proibido proibir a ternura

É proibido proibir a leitura
É proibido proibir conhecimento
É proibido proibir a rasura
É proibido proibir o vento

Mas é permitido proibir de vez
todo o atroz sofrimento
proíbam a mesquinhez
proíbam todo o tormento

proíbam toda a maldade
toda a ganancia humana
que de púlpito sempre há-de
pregar doença tão insana

Proíbam a miséria e a fome
Proíbam as doenças de negócio
Proíbam os canalhas de bom nome
das boas famílias em ócio

Mas é proibido proibir
aqueles que semeiam amor
que gritam liberdade a sorrir
e lutam suportando a dor.

Miro Couto
06-07-2020

05 julho, 2020

Ainda sei chorar

Ainda sei chorar

Ainda verto lágrimas pelo sucesso dos frágeis
ainda fico comovido quando alcançam amor
quando se permitem lutar e ser ágeis
sem perder carácter, dignidade, pendor


ainda me lavo em cloreto de sódio
quando vejo as almas peregrinas vencer
sulcando montanhas agrestes de ódio
vergados pela vida ao amanhecer


Ainda percebo a dor que dói aos outros
que me toca, que me revolta e indigna
como se minha fosse minha, desatina
revolta, e me consome aos poucos


pudera eu mudar o mundo desses que sofrem
mas o caminho é deles, em aprendizagem
ninguém, mesmo os mais fortes podem
substituir-se a eles com a sua imensa coragem


ainda choro imenso, quando vejo a progressão
daqueles que com imenso amor e vida, se dão
se oferecem em banquetes de amizade a amor
porque todos eles, já provaram o fel da dor.


E esses, irmãos, amigos humanos e companheiros
sal da vida, sem ódios, sem serem interesseiros
sois nesta vida e n’outras vidas os mais ordeiros
caminhantes divinos, em suma, anjos guerreiros


Miro Couto
05-07-2020

"Elas não são sinais de fraqueza, mas de poder.
Elas falam de forma mais eloquente do que dez mil línguas.
Elas são as mensageiras da esmagadora tristeza, da profunda contrição e do amor indizível.”
( Washington Irving )

03 julho, 2020

Desamor

Desamor

As lágrimas escoriam-lhe no rosto
como facas lancinantes na alma
pelas amargas palavras que ouvia

lavada pelo sal que deveria ser vida
colocava reticências na existência
como se só a morte a resolvia

Tanto desamor gerado acutilante
tanta guerra de ódios ancestrais
que ferem, machucam e rasgam

tanta palavra que pesa toneladas
em quem não se pode defender
daqueles que dizem que amam.

Ai se soubessem quanta dôr semeiam
as palavras que o vento faz gravar
quanta amargura premeiam
em seres que estão a naufragar

depois, depois dizem que merda
porque não disseste que sofrias
e o silencio da alma desesperada
dá sinais todos os dias

Acordem, percebam o amor
percebam as ondas que gera
deixem de semear a dor
porque será a dor que vos espera.

Miro Couto
03-07-2020

02 julho, 2020

Mulher

Mulher

És minha mulher, dizem
apropriando-se de alguém
dominando implicitamente aquém
da liberdade que possuem

Mulher, não é de ninguém
é dela, nem do pai nem da mãe
é uma praça que acolhe
aquele que a desfolhe

em seu consentimento
alguém que lá quer morar
será companheiro, alento
parceiro, que nunca fará chorar

Mulher é ser igual na diferença
é amor, é benquerença
à família que quis criar
é a chave da porta, a que chamamos lar

Miro Couto
02-07-2020